Às margens do Rio Tapajós, no município de Itaituba, a comunidade ribeirinha de São Francisco vive sob pressão constante. Nos últimos meses, a chegada de novos grupos de garimpeiros ilegais intensificou o conflito pela posse do território e pela saúde dos rios.
"A água mudou de cor. Antes era limpa, dava para ver o fundo. Agora está turva, com cheiro estranho", relata Maria do Carmo Pereira, 62 anos, pescadora que vive na comunidade há toda a vida. "Os peixes sumiram. A gente não sabe mais do que vai viver."
A contaminação por mercúrio, utilizado no processo de extração do ouro, é a principal preocupação dos moradores e dos pesquisadores que acompanham a situação. Estudos recentes da Universidade Federal do Pará detectaram níveis alarmantes do metal pesado em amostras de peixe coletadas na região.
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ibama realizaram operações de fiscalização na área nas últimas semanas, mas os moradores dizem que a presença dos órgãos é esporádica e insuficiente para conter o avanço do garimpo.
"Eles vêm, fazem barulho, vão embora. Depois de uma semana, os garimpeiros voltam", diz o líder comunitário Raimundo Farias. "A gente precisa de proteção permanente, não de visita."
O Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar a situação e identificar os responsáveis pela operação ilegal. Segundo a procuradora responsável pelo caso, as investigações apontam para a existência de uma rede organizada que financia e coordena as atividades de garimpo na região.
Enquanto a situação não se resolve, as comunidades ribeirinhas buscam alternativas para garantir a alimentação e a renda. Algumas famílias começaram a cultivar hortas e criar pequenos animais como forma de reduzir a dependência da pesca.